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§ A Humanidade da Música

abril 22, 2009

“Assim é a música: ao te libertar, prende-te ainda mais”
Bernt Von Heiseler

Apesar da palavra música derivar do grego musiké téchne, a realidade é que a música, enquanto expressão dos sentidos e expressão de contextos sócio-culturais, é tão universal quanto a linguagem, porque no fundo, a música é uma linguagem transmitida através de sonoridades e silêncios. Erroneamente considera-se que a música é, acima de tudo, uma manifestação artística que se expandiu para outros contextos com a terapia e dos ritos religiosos. Obviamente que essa interpretação carece de uma leitura religiosa ampla e principalmente pré-religiões do livro. Uma análise centrada nas religiões tradicionais facilmente permite constatar que a música se desenvolveu precisamente como veículo da prática litúrgica, funcionando como elo de ligação ao divino e sacralização do acto ritual. Povos tradicionais como os Yorùbá têm na música vital motor cultural e religioso. Os ritos iniciáticos, as festividades populares e todas as actividades do sagrado e profano assentam na vocalização das fórmulas mágicas através da sonoridade dos instrumentos músicas e do ritmo implementado nos textos.

A forma com se interpreta a função e essência da música, tem criado duas correntes distintas: a naturalista e a funcional. A abordagem naturalista, desenvolvida por Mersenne e Rameau, assenta na concepção de que a música não é um produto humano mas antes emana da natureza, os silêncios e os sons do natural são a primeira forma de música, porque a música é uma linguagem viva. Paralelamente, a visão funcional fala-nos da música como criação, como canal de comunicação, como diálogo entre compositor e ouvinte. É a actividade artística por excelência e só existe no âmbito do ser humano.

Seja qual for a leitura que preferirmos ou se entendermos que a música será o resultado da mescla das duas correntes, a verdade é só uma – a música é um meio vital de comunicação sensorial e atravessou todas as civilizações humanas, sendo tão antiga como a linguagem e a própria experiência religiosa, por mais simples que ela seja (divinização do medo da morte).

A frase de Bernt Von Heiseler, que serve de abertura ao presento artigo, resumo bem a relação que o sujeito desenvolve com a música. As possibilidades sensorais que a mesma disperta – seja de libertação, epifania, relaxamento, ligação ao divino, expressão de sentimentos, etc. – funciona dupla e contraditoriamente. Permite por um lado canalizar estados de alma para um patamar de pureza e libertação e ao mesmo tempo é uma droga sensitiva, uma vez que quanto maior é a relação com a música, quantos mais estados de conhecimento e de apreciação maior será a dependência. E a música continua a ser uma das melhores criações humanas. Acima dos homens, perto dos deuses.

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Pré-escrita

abril 15, 2009

Não será de maneira alguma um blogue. A sua atualização não terá lugar no reboliço da blogosfera e no imediatismo da postagem/leitura. O «Espaços da Memória» sai fora disso. Pretende ser – e certamente será – um espaço de reflexão demorada, um lugar de leituras continuadas da existência. Diríamos, uma viagem pelos complexos da existência humana, pelos dramas sociais, religiosos, políticos e culturais luso-afro-brasileiros. O passado, o presente e o futuro feitos nas ruas da existência humana. As nossas guerras, os nossos preconceitos, os complexos morais eternos, as dúvidas, as certezas universais, os paradigmas gastos nas ruas da vida. O que fomos, o que somos e o que seremos como pessoas, como cidadãos, como ativos sociais, políticos, culturais, religiosos e económicos. Aqui, no «Espaços da Memória».

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